VICENTE'17 Do silêncio dos Corvos, Animal Vicente

Inauguração 2 de setembro 2017 - 18h |Artistas: Dominik Lejman/ Ermida até 22 de outubro 2017 e Diogo Machado aka ADD FUEL/ Intervenção Urbana até 30 de abril 2018 | Performance 19h – Vicente Branco | Curadoria: Mário Caeiro | Lisboa na Rua

AUTORES VICENTE 17

Luísa Paolinelli e Carlos Barradas, Rui Grácio das Neves, Paulo Lima, Catarina Pombo Nabais, Madalena Folgado, José Manuel Anes, Nelson Guerreiro, Mário Caeiro
António Jorge Gonçalves, Diogo Braga

O VICENTE é um projecto de espaço público mítico, traduzindo através da arte e do pensamento o sentido da lenda de São Vicente para os nossos dias. À sétima edição, VICENTE dedica especial atenção aos corvos de Lisboa, ilustres representantes do reino animal no principal mito de Lisboa. Através dessas duas criaturas que vemos nas armas da Cidade, somos convidados a pensar a questão da nossa relação com os animais, e consequentemente a da nossa relação também com os da nossa própria espécie. No programa destaca-se a apresentação, na Ermida Nossa Senhora da Conceição em Belém, de time-based paintings de Dominik Lejman e de uma intervenção na fachada por Diogo Machado aka ADD FUEL. Durante a inauguração será apresentada a obra Vicente’17 – Do Silêncio dos Corvos, Animal Vicente, com a participação, entre outros autores do ilustrador e performer visual António Jorge Gonçalves.

Do silêncio dos Corvos, Animal Vicente

São Vicente é uma personagem histórica e o herói de um mito medieval. Em cruciais momentos da sua vida – real e lendária – foi acompanhado por corvos que, até hoje subsistem sob a forma de duas redentoras silhuetas que se recortam no símbolo-mor de Lisboa: o brasão da cidade. Ecoando o bestiário medieval, mas também arquétipos culturais profundos, a verdade é que estes silenciosos seres negros têm muito que se lhes diga…

Dominik Lejman + Diogo Machado aka ADD FUEL
No interior da Ermida Nossa Senhora da Conceição, a Belém – o ninho do Projecto VICENTE –, somos literalmente confrontados com duas obras do artista polaco Dominik Lejman. As suas vídeo-pinturas em loop são, pela sua poética sonâmbula, um desafio à nossa percepção e ao entendimento profundo da nossa co-presença. Na fachada, somos levados a delongar-nos na linguagem ornamental do artista urbano Diogo Machado aka ADD FUEL, cujos padrões azulejares escondem um fantástico actual e um provocatório horizonte ficcional. Para além das intervenções destes dois artistas, VICENTE edita o habitual livro, prolongando a experiência do espaço e do lugar com perspectivas oriundas de disciplinas e saberes diversos: a história e a simbologia, a biologia e a etologia, as artes, a filosofia e os estudos animais. José Manuel Anes é um dos autores. A edição fica completa com projectos de ilustração originais, um pelos jovens designers Diogo Braga e Sara Valente e outro por uma referência do desenho e do cartoon: António Jorge Gonçalves. Se na Lisboa medieval os corvos eram animais vivos no quotidiano e na vida religiosa, hoje, na cidade domesticada, são uma memória cada vez mais distante e um motivo meramente visual. E se, confirmada pela ciência, subsiste a ideia de que os corvos são animais excepcionalmente inteligentes e sociais, para o VICENTE o essencial é, agora na esfera da arte e do pensamento contemporâneos, continuamos a usar o animal para multiplicar conotações. Por outras palavras, é boa altura para colocarmos o problema do animal – o outro por excelência – no âmago dos processos que nos tornam humanos. É bom pretexto para redescobrirmos o humano que (supostamente) somos.

Estados da matéria. Double take.
Dominik Lejman

Moldar a relação com o tempo por via do testemunhar da experiência do ‘estranho’. Pensa-se que o ‘agora’ é para os animais o nível temporal principal, o qual experienciam sem assinalável referência ao futuro. O polvo, no entanto, parece ter a capacidade de prever o futuro. A obra Ora pro nobis foi desenvolvida a partir de imagens do polvo branco do Aquário de Osaka, no Japão, integralmente captadas pelas câmaras de segurança. De uma forma geral, o problema da percepção em arte convida o espectador a participar no acto criativo desde que este seja não tanto ilustrativo mas propriamente sensacional. Lightweight é uma obra de projecção. As imagens, oriundas de uma performance realizada num túnel de vento, são de um corpo amortalhado, pairando, “sem peso”. Em ambas as obras, Ora pro nobis e Lightweight, o 'estado da matéria' do Outro representado é estranho ao espectador. Podemos no entanto demorarmo-nos na observação dessas duas fases do ‘estado da matéria’, representadas pela justaposição das duas projecções em paredes opostas da capela. A percepção da passagem do tempo, a partir destas duas perspectivas, a de um animal amórfico e a de um corpo sem peso, pairando, é igualmente hermética para o visitante, que se torna testemunha de ambas e do seu confronto. São providenciados extraordinários pontos de referência para a sensação do AGORA.
©Dominik Lejman 2017

Sobre o artista
Há uma poderosa ética do social por detrás da tekné de Dominik Lejman. Ela liga a ancestral cultura visual da Pintura a assuntos candentes de hoje – da Globalização à Alienação. Como um etnólogo (Foster) Lejman re-presenta grupos ou indivíduos numa espécie de ‘cinema’. Ele é um realizador – a sua cinemática é feita de loops de curta duração, cenas elípticas, formas negativas e a forma como tudo se dilui no ambiente material. As ‘estrelas’ são personagens anónimas, cujas performances o espectador é convidado a interpreter. É um impactante contacto com o Outro, seja este um filósofo ou pára-quedistas, uma pole-dancer ou maratonistas. O tempo, o espaço e a superfície são temas-chave para compreendermos o output artístico de Dominik Lejman, cujos interesses estéticos residem entrea modalidade da Pintura e as possibilidades, continuamente em evolução dessa tradição. Painting with Timecode é o título de uma recente monografia sobre o artista. […] A Pintura como processo criativo é para ele não apenas um meio de expressão mas um método terapêutico para sobreviver ao macro contexto sociopolítico envolvente, um mundo à beira da catastrophe. Lejman valoriza o facto de se encontrar basicamente dependente apenas de si próprio para produzir as suas mensagens, as quais ocorrem nas mais diversas situações: enquanto contra-esfera pública (“Double Layer”, 2011), mundo surrealista (“The Hospital as a Landscape for the Little Discoveries”, 2004) ou retórica da graça (“60s. Cathedral”, 2011). Nascido na cidade báltica de Gdansk (n. 1969), Dominik Lejman formou-se na Academia de Belas Artes local e no Royal College of Art em Londres. Constantemente activo também na Academia, pontos altos do seu percurso foram as várias exposições individuais durante os anos 90 e 00. As suas mais importantes exposições decorreram na Zachęta National Gallery of Art em Varsóvia (2005, 2006, 2015, no Osaka National Museum (2008), na Kunstlerhaus Bethanien em Berlim (2011) e na Bienal de Arquitectura de Veneza (2004). Vive em Berlim.
Texto por Agata Wiorko

Diogo Machado (Add Fuel)
Apresenta-se uma proposta baseada no trabalho que tem sido desenvolvido à volta da reinterpretação da azulejaria portuguesa nomeadamente a de padrão, baseada na estética (de adaptação formal e cromática) do séc. XVII. Uma adaptação do trompe-l'œil convencional e a tesselação harmoniosa de repetições simétricas ao estilo de ilusão visual é o tema constante explorado pelo trabalho de Diogo Machado. Dentro destes parâmetros propõe-se, pela inserção de elementos provenientes de um mundo ilustrativo muito próprio do artista representados por camadas e a interligação entre elas, uma reflexão sobre o animal como ser e a sua ligação com o ser humano, a tradição e a história.

Sobre o artista
Add Fuel é Diogo Machado (1980), artista e ilustrador português. Ex-designer gráfico, a sua prática artística recente tem-se concentrado em reinterpretar e brincar com a linguagem tradicional do azulejo, e em particular aquele de origem portuguesa. Mesclando elementos tradicionais e contemporâneos, as suas originais criações de base vectorial e intervenções de rua com recurso ao stencil revelam uma impressionante complexidade e uma mestria na atenção ao detalhe. Com base numa combinação de tesselações que criam harmonia a partir de repetições simétricas e técnicas de ilusão visual como o trompe-l’œil, as suas composições de padrões multi-dimensionais criam um ritmo poético que joga com a percepção do observador e as possibilidades de interpretação. Desde 2006 tem exposto o seu trabalho em mostras individuais e colectivas, assim como participado em alguns dos principais eventos mundiais de arte urbana.
Texto por Miguel Moore

Vicente Branco

Vicente Branco tem dezassete anos. Dança há cinco anos como autodidacta e há dois profissionalmente, estando neste momento a estudar no Balleteatro do Porto (Coliseu do Porto). Pratica Ballet, Contemporâneo, Popping, Hip Hop e Cunningham. Tem-se apresentado em trabalhos audiovisuais de dança ("Got Soul?" – 8.º vídeo Online Dance Company powered by Millennium BCP) e espectáculos: "Kairos o Brilho do Tempo" – espectáculo de dança Afro-Contemporânea coreografado por Roges Doglas Marinho e Cláudia Nwabasili, Coliseu do Porto e Passeio das Virtudes com co-produção da Cooperativa Árvore; "Angels" – espectáculo de Dança coreografado por Flávio Rodrigues e Joana Castro, Coliseu do Porto e Forum Ermesinde; “Novo Circo” – espectáculo de Dança coreografado por Carlos Silva, Coliseu do Porto e Exponor; espectáculo de Dança em parceria com a companhia “The Edge”, The Place (Inglaterra), Casa das Artes de Famalicão.

António Jorge Gonçalves
(1964) é autor de banda desenhada, cartoonista, performer visual, ilustrador, cenógrafo e professor. É autor de diversas Novelas Gráficas, e tem colaborado com diversos escritores – Nuno Artur Silva, Rui Zink, Ondjaki ou Mário de Carvalho – na criação de livros onde texto e imagem se relacionam de forma exploratória. Criou o projecto Subway Life, desenhando pessoas sentadas nas carruagens do Metro em 10 cidades do mundo. Estes desenhos foram apresentados através de um website, de um livro editado pela Assírio & Alvim, e de uma exposição em circulação. Faz semanalmente cartoon político para o Inimigo Público (suplemento do Público) desde 2003. Estes trabalhos foram também publicados no Le Monde e Courrier Internacional, e premiados no World Press Cartoon. Fez cenografia e figurinos para diversas peças de teatro. Através do método de Desenho Digital em Tempo Real e da manipulação de objectos em Retroprojector de Transparências, tem criado espectáculos com músicos, actores e bailarinos. Recebeu em 2014 o Prémio Nacional de Ilustração (Portugal) pelo livro “uma escuridão bonita” (com Ondjaki, Caminho 2013).

Links úteis

Sobre as edições anteriores
http://www.travessadaermida.com/index.php?q=C/NEWSSHOW/3942
http://www.travessadaermida.com/index.php?q=C/NEWSSHOW/3631
http://www.travessadaermida.com/index.php?q=C/NEWSSHOW/3018

Sobre os artistas VICENTE’17

http://www.dominiklejman.com/

www.addfuel.com


www.facebook.com/addfuel
www.instagram.com/addfuel

http://www.antoniojorgegoncalves.com/



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