Entalada

Sandra Baía
Curadoria: Sandro Resende
19/05/2018

Apoio
Andaluga

Informamos que a instalação "Entalada" da artista Sandra Baía na Travessa da Ermida foi lamentavelmente vandalizada e por isso retirada.

A apresentação de Entalada de Sandra Baía na Travessa da Ermida
trouxe-me memória de outras obras.

Em Lisboa, os Entalados da década de 50, expressão empregue por Keil do Amaral para denominar as obras figurativas realizadas para os prédios de rendimento, maioritariamente na Avenidas Novas de Lisboa. Estas obras estavam literalmente, e na sua maioria, colocadas entre a parte superior das portas de entrada dos prédios e outros elementos arquitectónicos da fachada como janelas ou varandas do primeiro andar, gerando um efeito visual de aperto ou tensão. Na época foram realizadas muitas obras que eram representações de mulheres e ficaram vulgarmente conhecidas por As entaladas, daí a origem e inspiração no nome da obra apresentada.

Em 1961, Christo e Jean Claude apresentaram Wall of Barrels – The Iron Curtain, Rue Visconti em Paris. Esta obra consiste em oitenta e nove barris de petróleo empilhados numa rua estreita, somente durante oito horas, de forma a obstruir a circulação na rua. Foi pensada no contexto do início da construção do Muro de Berlim em 1961 e dos protestos e barricadas como reação à guerra da Argélia.

Esta sensação de tensão, dada por algo que está comprimido ou forçado entre duas estruturas já existentes surge também no trabalho de Sandra Baía, que consiste numa esfera espelhada com 5 metros de diâmetro pensada especificamente para ser colocada entre as fachadas exteriores de dois edifícios na estreita travessa da Ermida, permitindo a circulação por baixo da obra.

Ao passarem por baixo da obra os visitantes interagem com a esfera espelhada da mesma maneira que se interage com as obras de Michelangelo Pistoletto (1933), fazendo parte dela, criando histórias, mas com uma diferença: como o reflexo é de 360º e esférico. Tudo o que se encontra à sua volta será refletido, incluindo o observador, o que nos remete para a obra O Casal Arnolfini de Jan Van Eyck de 1434 na qual encontra uma representação de um espelho com a forma de um círculo que gera imagens e reflexos destorcidos da sala e dos objetos onde se encontra o casal retratado. É um jogo de imagens que se acentua através distorções e profundidade de campo suscitando ao mesmo tempo a curiosidade do observador.

Tensões e reflexos têm sido ao longo dos anos sujeitos de investigação no trabalho de Sandra Baía: a tensão criada por um ligeiro desequilíbrio em estruturas que são aparentemente estáveis ou equilibradas e reflexos pela utilização de materiais que são espelhados.

Na obra Entalada, pela ação subtil da artista, pela presença do observador
e pelo espaço onde está integrado, uma esfera perfeita vê a sua perfeição
estrutural alterada.

Lourenço Egreja
Lisboa, 2018

Sobre Sandra Baía
Natural de Lisboa, onde nasce em 1968, reparte a infância por Angola, Moçambique e África do Sul e regressa a Lisboa em 1977 onde mantém residência e estúdio de trabalho. Completa os estudos secundários em Lisboa, e em 2000 encontra criadas as condições e as oportunidades para iniciar a sua carreira artística. Após a frequência de dois anos nos cursos de Pintura e de Desenho na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa, desviando-se da formação acadêmica convencional, opta por prosseguir a sua formação enquanto autodidacta e por iniciar a sua prática artística, beneficiando dos estímulos de maior liberdade que encontra no estúdio do pintor. João Cristóvão. Está representada nas colecções de várias instituições públicas e privadas, nacionais e internacionais. Cruz Vermelha Portuguesa, Movijovem, Novo Banco, Nova Expressão, Fundação Andy MacDonald, Cinemateca Portuguesa, Colecção Berardo, Bienal de Veneza 2017 e a mais recente a Fondation François Schneider. Conta com inúmeras exposições individuais realizadas desde há catorze anos, das quais se destacam: DANS LE RÔLE (2017) Museu do Telhal, Telhal Portugal; Água-Pedra (2017) Museu do Côa, Vila Nova de Foz Côa Portugal; Bienal de Veneza (2017), European Culture Center, Veneza, Itália; Simplicity Isn´t Simple (2017), Fundação Dom Luís I, Cascais, Portugal; Light, Aura, Reflex, Tal/TechArtLab (2017) Cidadela Art District, Cascais, Portugal; Special Random (2016), Palácio Nacional de Mafra; Mostra Lisboa (2016), Lisbon, Portugal; Room 027 (2015), Cidadela Art District, Cascais, Portugal; Fake (2014), Centro de Cultura Cascais, 650 anos Cascais, Portugal; Artifacts (2014), Chiado Underscore Gallery, Lisboa, Portugal; Looking is not Seeing (2012), Hadid Gallery, LA, EUA; Arsénio Emoções (2012), Work Ink Gallery, Cascais, Portugal; Touch (2011), XN Brand Dynamics, Lisboa, Portugal. Destacam-se ainda as participações nas exposições coletivas: Mostra Porto (2016), Santa Catarina Porto, Portugal; De Nature (2015), Espaço Com.Horta em parceria com a Underdogs Gallery, Comporta, Portugal; Cidadela Art District (2014), curadoria de Sandro Resende, Cascais, Portugal; Surrounded By Colors (2014), Macadam Gallery, Bruxelas; The Story Of The Creative (2013), Billboard Times Square, NY, EUA.


Ermida de Belem

© 2011- 2013 Travessa da Ermida, todos os direitos reservados

made by:BuzzID